O PROJECTO SARS

Quando retratamos uma cidade, fazemo-lo habitualmente através das sempre presentes fotografias. A visão é, afinal, o sentido privilegiado. Não é, no entanto, o único.

Grande parte do entendimento dos locais que habitamos deve muito à impressão sonora que nos deixam – o som das suas máquinas, o tom das conversas das suas gentes, a fauna e os elementos naturais, e tudo aquilo que se ouve quando aparentemente há silêncio.

O projecto Sons do Arco Ribeirinho Sul procurou elaborar, entre 2012 e 2014, precisamente um retrato sonoro de algumas das zonas mais emblemáticas do Concelho do Barreiro, criando um arquivo sonoro que representa um acrescento patrimonial, imaterial e valioso, ao espólio local, e permite enriquecer a forma como reconhecemos o espaço que nos rodeia. Esta colecção de sons constitui, ainda, um documento que preserva para a posteridade o ambiente acústico e sonoro destas áreas neste período de tempo.

Daqui por uns anos, ao voltarmos a este arquivo sonoro, daremos talvez conta de sons que já não existirão da mesma forma; notaremos a ausência de novos sons que entretanto já farão parte do quotidiano da cidade; ouviremos ainda sons que entretanto terão sido declarados extintos.

Convidamos todos a deter-se no acto de Ouvir, a prestar uma atenção mais próxima do que o habitual aos sons que nos rodeiam, e a que muitas vezes não estamos atentos.

Conheceremos melhor, desta forma, a cidade em que habitamos.

 

Os locais

1) Mata da Machada e Sapal do Rio Coina

 

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A realização deste projecto coincidiu com a criação da Reserva Natural Local do Sapal do Rio Coina e Mata Nacional da Machada, um novo estatuto que assinala a importância deste importante refúgio natural no Concelho, e que assegura de forma mais eficaz a sua preservação.

Nestes territórios encontramos uma mistura notável, em termos sonoros, da sua riqueza e biodiversidade: escutamos as muitas e diversificadas aves (com destaque para os abelharucos, os pica-paus ou os guinchos no Sapal), os répteis e batráquios, os insectos, ou os nocturnos morcegos.

Por outro lado, testemunhamos a actividade humana: o jogging, o ciclismo, as actividades do quartel de fuzileiros, as iniciativas educativas e lúdicas promovidas pelo Centro de Educação Ambiental.

Por último, ainda, e relembrando-nos que estes espaços são como que oásis num ambiente urbano, ouvimos os sempre presentes automóveis, motas e camiões em circulação pelas várias estradas e vias-rápidas que circundam por completo toda a área.

2) Zona ribeirinha e parque industrial da Baía do Tejo

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O retrato sonoro da zona industrial e ribeirinha do Barreiro funciona, de certo modo, como um portal para outras épocas na vida da Cidade.

Ouvimos no actual parque empresarial da Baía do Tejo as cargas e descargas no porto, as emissões das chaminés, o laborar de algumas fábricas, e imaginamos o efeito sonoro exponencial que há 50 ou 60 anos perpassava por toda essa gigantesca área e compunha o quotidiano de tantos milhares de barreirenses.

Na antiga Estação Fluvial e Rodoviária, por outro lado, sentimos ainda a presença imponente das centenas de turistas em trânsito entre Lisboa e Algarve e dos altifalantes debitando informação em várias línguas, ou dos barreirenses a caminho de Lisboa para mais um dia de trabalho na memória dos barcos ainda atracados no antigo cais.

Escutando a solene ondulação das pequenas embarcações ancoradas no pontão da Avenida da Praia, ou caminhando em direcção a Alburrica, regressamos às raízes do Barreiro enquanto vila piscatória, através dos sons das dezenas de pessoas que, pela manhã cedo, preenchem o leito do Tejo para a apanha de bivalves.

 

O processo

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Ao longo de cerca de dois anos, Luís Antero e Paulo Raposo, retratistas e arquivistas sonoros, embrenharam-se nestas áreas do Concelho, munidos de gravadores e microfones de vários tipos.

Alguns dos sons representam o equivalente acústico de fotografias panorâmicas, abarcando o som de uma área relativamente vasta, um ambiente sonoro geral de determinada zona; outros captam em relativa proximidade sons particulares e específicos; outros ainda vão em busca de sons quase microscópicos – debaixo da terra ou dentro de água.

A captação de sons implica vários regressos à mesma zona, em meses, dias, e horas diversas; a dinâmica da cidade e dos seus lugares está em constante mutação ao longo dos dias e do ano, com infinitas variações e particularidades.

Este retrato sonoro representa, assim, momentos na vida do Concelho que têm uma identidade própria e que se repetem com alguma regularidade; de fora ficaram, inevitavelmente, inúmeras ocorrências no dia-a-dia dos lugares que revelam episódios singulares, imprevisíveis e irrepetíveis.

Cada um de nós, na sua vivência da cidade, tem a possibilidade de parar, ouvir e conhecer de perto esses instantes únicos.

 

O DOCUMENTÁRIO

O decorrer do projecto foi acompanhado por um processo contínuo de registo de imagens do trabalho de campo. Este acompanhamento traduziu-se na realização de um documentário em vídeo, exibido pela primeira vez a 11 de Janeiro de 2014 no Auditório Municipal Augusto Cabrita.

Realizado por Sílvia Coelho, este filme, com uma duração de aproximadamente 30min, pretende ser uma tradução visual do acto de Parar Para Ouvir.

 

A EQUIPA

Recolhas de som:
Luís Antero
Paulo Raposo
José Bica (contribuidor)
Tiago Carvalho (contribuidor)
Mário Carmo (contribuidor)

Documentário:
Sílvia Coelho (realização)
Fernando Neto (voz off)

Design:
Cláudio Fernandes

Coordenação:
Rui Pedro Dâmaso
Vítor Lopes

Assistente de produção:
Igor de Brito

 

Apoios

O projecto Sons do Arco Ribeirinho Sul contou com o impulso inicial da Arco Ribeirinho Sul, SA., tendo, após a dissolução desta sociedade, sido suportado pela Câmara Municipal do Barreiro e pela Baía do Tejo, sem as quais a sua conclusão não teria sido possível.

Agradecimentos:
Paulo Simão, por ter acreditado sem reservas no potencial do projecto.
André Batista
Nuno Banza, pela sua fundamental importância e impulso decisivo para a conclusão do projecto.
Sérgio Saraiva
Nuno Cabrita e toda a equipa do Centro de Educação Ambiental da Mata da Machada e Sapal do Rio Coina.
Mónica Duarte
Ricardo Medeiros
Sofia Matos, Celeste Beirão e restante equipa técnica do Auditório Municipal Augusto Cabrita